27/04/2010

Pausa.

PRIMEIRA PARTE
Até os dezessete anos, amei os diários. Tesouros de baú.
Literalmente.
Hoje empoeiram-se em um retrato puro e nostálgico do que passou, e não volta. É repetido, ma s que contraria?
Não quero escrever sobre a mudança que ainda dói, as novas cores de minhas paredes. Não quero escrever que aqui, nada de linhas de trem, minha igreja e o sinal de glória. Nada de oitenta e cinco, degraus e calçadas.
Quero escrever mesmo, sobre o meu curso, Letras. Finalmente.
Outro clichê: antes tarde do que nunca, minha neta.
Eu nunca tive a pretensão de sentar-me ao lado de um Camões. Muito menos que Pessoa me explicasse porque a chuva o deixa molhado e a Alberto, triste. Mas, preciso confessar: tenho fotogramas confusos deste filme que estou vivendo, que somados, são maiores que alfabeto. O nosso, o grego, todos os outros. São dias em que as letras se estendem em minha mente. Ensaiam passos e dançam falsas valsas. Me perco em meus próprios verbos, no meu passado, no meu presente, no meu futuro, para depois me achar em cada um deles. Perfeitos ou não.

Decido. Pela língua, pelos advérbios, pelos poemas, todos os romances: iria novamente a qualquer outro lugar.

SEGUNDA PARTE
Sabe aquela musiquinha: festa estranha com gente esquisita?
Pois é! Não aconteceu. Os estranhos estão imersos no maravilhoso do desconhecido. Mesmo que tão singulares, nada esquisitos. A pequena que me apelidou do que hoje virou o meu nome, é tão essencial quanto o silêncio e o barulho. Dos músicos, o que seríamos sem? A fotógrafa é gastrônoma, é menina, é mulher. É preto e branco, é colorido, açúcar puro. Me adivinha os pensamentos, me sublinha os guardanapos. Com Diva viajo em balões tranquilos. Com Bruno, penso que tudo pode ser. Ou não. E sempre estará tudo bem. Marcio é o sereno, que agita os nervos, os ouvidos. Caio é desfibrilador. Energiza. Samuel poderia mesmo ter vários nomes, tendo sempre suas filhas do vento. Luiz é o sorriso que emoldura palavras. Retratos que não quero pensar. Diego é a inércia de tudo aquilo que procuramos por nos fazer bem.
Em todo o canto, por todo o encanto.

(Tão bem quanto os que ficaram, a "parte do que sempre me fez forte". Tara, Thiago, Marília, Julia. E por vocês: toda saudade deste nosso mundo)

10/02/2010

Não morda a maçã, Eva.


E se assim me perguntassem, entre um café ou os segundos do elevador, o que me atormenta nesses dias, além do sol estandarte das tardes, a resposta viria em verso desacompanhado de melodia, novamente: Viver está me deixando louca.
São dias que permaneço na inércia da espera. Caso me venha o perverso, o amaria, para fazer valer o costume. Se me vier o são, não o detestaria, mas a conversão viria em doses que jamais serão remédio. Na intenção ou nos amores, há sempre o pecado disfarçado em seda pura, e ainda vale o que já foi dito: há mais alegria pelo arrependimento de um pecador, do que por cem justos que jamais pecaram. O mal nada é senão pura vaidade.*
Nestes dias, a salvação me levaria aos céus, a tentação, um andar abaixo. Das minhas palavras, faria um discurso republicano, cartão de aniversário, pedido de trégua ou acordos de guerra.
À espera. –
.
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* A Dama das Camélias, Romance Francês.

Paciência

Enquanto os planos para 28, 29, 30, são desfeitos em milhares e escapam pelas cortinas, como se ali não desejassem estar, outros de arranjam pela tela multicolorida. Multiplicam-se em meio às cartas que você diz não achar que valem o tempo. De nenhum modo. No way. E assim está feito, sem que nada mais me reste: muitos quilômetros em suas variações de alguns centímetros e planos desfeitos. “NOT”.
Em uma nova ordem, os fotogramas deste coração quase nada conceitual, e por horas, não coração, repetem cenas já vividas. Lágrimas novas com algumas dores já antigas. Empoeiradíssimas, não demoram em se repetir. Posso imaginá-lo: Você não se cansa? A aflição reajusta os desvios, o remorso castiga a culpa.
Ou, ficou difícil, tudo aquilo, nada disso. Sobrou meu velho vício de sonhar - Precipício em precipício.

Avesso

Depois do blues e as madrugadas, achou que mal não faria em deixá-lo. De uma vez, e dessa, para sempre. Há meses discutia com o analista se haveria mesmo amor, ou se o tudo somente era canção, vinho e lençóis convidativos. Freud explica e para todo o resto, metafísica. Noites atrás puseram-se os olhos uns sobre o outro e em uma manhã acharam que seria eterno. Lembrou da célebre: às vezes acaba o amor como se fosse melhor nunca ter existido. E decidiu, seria o fim. Não há análise possível para certas pretensões.
Ele, enlouqueceu. Os homens enlouquecem, todos sabem. Espatifam os retratos, rasgam os contos e suas eternas coincidências lastimáveis. Ela o deixou, enquanto as frases de misericórdia esbarravam na ausência absoluta de lágrimas de adeus. “E de que adianta tanta mobília?”
Nos cafés, amigos irão discursar: - Houve o tempo em que ela o amou, de verdade. Mas deste jeito que as novas mulheres amam. Em uma bela manhã acordam e já não amam mais, não há o que ser feito.
E depois dos cafés, martinis infalíveis para todos os tempos. Irão esquecer.

14/12/2009

Inspi(red)


Palavras enfileiradas em seus discursos de improviso.
Sobressaltos nos poucos passos dados em escadas breves.
Para o que há do outro lado, trancado a 3 chaves, delírios embebidos nos segundos de espera.

Às claras, respirar com vertigem frente a frente, derramando palavras, dizendo com os olhos, do silêncio que não é mudez.

Inspiração real e pronta. Labirintos cegos de fôlego curto.
Puro açúcar branco e preto.
Doçura venenosa de tão funda.

Antigo


E mesmo sabendo que já era dito, escrito, estendido em várias letras, achou que caberia bem repetir mais uma vez, para fazer valer: não gostava muito do calor dos últimos dias. Eufêmica, claro. Em linhas sinceras, diria que odiava muito o calor dos últimos dias.
Pensou que sem o sol, não haveria essa sede de beber os mares. Talvez sem o sol dos dias, findaria e dessa vez para sempre, esses súbitos vindos em maus sonhos. Nem pesadelos nem devaneios. Somente gestos atados e palavras esbravejadas no silêncio.
O sol dos dias invadia a sua casa, como se descobrisse-lhe o coração. Por horas, não coração. E suas declarações de ciúmes amargos, ódios vagos e estúpidos. O sol dos dias caia sobre os seus sorrisos de metáfora. Iluminava a pilha das cartas sobre as cartas. O sol dos dias, alardeava as lágrimas confessadas ou secretas. Lágrima de amor, calor e parabéns para você.

Ninguém lhe nega coração excelente e claro espírito, mas a imaginação é que e o mal - Metafísica.

Olhe, eu podia mesmo contar-lhe a minha vida inteira, em que há poucas outras coisas interessantes, mas era preciso tempo, ânimo e papel, e eu só tenho o papel; o ânimo é frouxo e o tempo assemelha-se à lamparina de madrugada. Não tarda o sol do outro dia, um sol dos diabos, impenetrável. (Machado de Assis)

22/10/2009

Então,

que seja doce.

Sobretudo, agora e como não era há tempos, estava feliz.
Mesmo com o calor dos dias, estava feliz. Esqueceu, de uma vez por todas, e da forma como devia, das flores que nunca vieram, das taças que não dividiram, dos lençóis que não estiveram, e do beijo que repousou em silêncio. Agora, a felicidade, cintilava em seus varais. E ainda, lhe restavam as 6 vidas, que multiplicadas, seriam infinitas.
Os mais importantes, estavam todos ali. E a certeza de que eram únicos e suficientes, se eternizava nas canções, nos fast-foods, nas incontáveis bebidas alemães. Hoje, escreveria em m suas paredes, em vermelho, para não faltar a cor: Queridinho, sobre as pessoas especiais, já as encontrei. E além, assinaria com um obrigadíssimo em letras garrafais.
E afirmou que sobretudo, as palavras, ditas e imagináveis, para sempre seriam mais importantes que os números, porque assim já está feito, já é decidido. Nada mais importante que as palavras.
Estava feliz. Em superlativo.


"Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, bem assim, que seja doce ." Caio F.

30/09/2009


Dessa ausência tão bem cultivada, talvez não me sobre nada.

São dias em que me perco em tudo o que me cerca. São esses anjos tristes perto de mim, pousados em minha janela como pêndulos de solidão. Enquanto mamãe toca piano no caos, recolho os nossos cacos pela casa, talvez sabendo que esses são para sempre e assim é o nosso fim. São todas as músicas e o caos.
Enquanto tomo o café sem as gotas de salvação, tenho saudades de tudo. Vovó, por que me deixou aqui, sem o seu terço de brilhantes, sem nem saber para quem rezar? E onde estaria o para sempre escrito nas linhas tortas daquela noite?
E o coração espatifado entre as lágrimas que já não posso contar, não responde.
Não me esbarro nos móveis e assim, me estranho: “Você adora esbarrar nos móveis – ele diz”. (E querido, sinto a sua falta. Continuo ensaiando a nossa canção)
Gostaria de picar o meu catálogo de erros. Costume antigo. Todos ilustres, bem postos, como figuras coloridas de coleção. Gostaria de calar todo esse silêncio embebido em minhas vozes magoadas. Gostaria de estancar essas súplicas destiladas, e não tê-las me bastaria. Confundo-as, palavras e lágrimas, as minhas palavras são as minhas lágrimas.

Não escondas as tuas misérias: podes ter segurança com aquele que gosta dos teus defeitos, porque aos teus encantos e qualidades qualquer um se afeiçoa.
(Héctor Abad Faciolince, Receitas de Amor para Mulheres Tristes)

É quando ouço papai dizer: Durma querida, logo passa.

29/08/2009

Muito Sentimental.

Eu gosto do nada - Nada que te leve para longe.

95.
Assim, puro e simples. Muito Sentimental.
Sentimentalismo esbarrando entre os móveis, evaporando através das cortinas. Estampando as novas almofadas. Alinhado nos milhares de cabides. Sentimentalismo envolto nos mal contados cigarros pláticos.
Lustrando as xícaras de café.
sen.ti.men.ta.lis.mo sm (sentimental+ismo) 1 V sentimentalidade. 2 Exagero do sentimento e dos afetos ternos. 3 Afetação nas demonstrações de sentimento. 4 Filos Doutrina que preconiza o princípio de que, no homem, existem sentimentos que são a origem das idéias morais. 5 Gênero literário ou artístico em que se nota o predomínio do sentimento, que, por vezes, chega ao exagero.
Pensou nos dias passados, na saudade do que não veio. Na angústia pelo que certamente não virá. EXAGERADO (amor da minha vida...). Sentimentalismo exagerado nos minutos entre linhas. Nas pausas do grafite. SENTIMENTALISMO entre os talheres, as toalhas. Sentimentalismo dentro dos frascos de perfume, enlacando as pérolas. Sentimentalismo. Sentimentalismo. Sentimentalismo.

Chorou chorou. Choro muito sentimental. Talvez fosse o travesseiro de plumas muito sentimentais. O Retrato muito sentimental. O Maltês Sentimental. EXAGERADO, ENFIM, MUITO SENTIMENTAL.

(E de telefone - SE DO OUTRO LADO É A SUA VOZ)

14/08/2009

Escritor Vagabundo

"(Às) As Eternidades Finitas
Meu gosto seria o de escrever um livro
os versos seriam curtos demais, simples demais
então antecipou-se a fadiga
infinita ao se pensar no esforço,
infinito da repetição de rituais,
infinitos em eternidades, finitas"

Por Thiago F.
(Inexplicavelmente, à primeira vista)